Com essas palavras Nizan Guanaes classifica o dia 08 de julho de 2010, quando foi lançado oficialmente o logotipo da Copa do Mundo FIFA 2014. De fato! Pra mim também seria o dia mais emocionante se minha agência fizesse o logotipo de uma Copa. Grana, prestígio, mídia, mídia e mais mídia, mais clientes, entrar para história. Eu ficaria bem feliz mesmo.
Forma
“É uma porcaria”, diz Wollner em entrevista para o Terra Magazine sobre o logotipo. E não posso deixar de concordar. A idéia (por si mesma) até que é interessante pois, todos os jogadores de futebol do mundo sonham em levantar a Taça FIFA. É uma idéia bacana e não havia sido muito explorada ainda (somente o logo da Copa de 2002 que usa a taça como tema. Em 1966 e 1978 existem menções a ela. Contudo, uma boa idéia com execução pobre fica apenas nisso, numa boa idéia. E, a meu ver, é o que acontece com esse logotipo. Simples assim. E não digo isso sob o prisma da estética, essa que se forma nos olhos de quem vê, mas sob o prisma do desenho.
Compartilho muito da visão da prof. Priscila Farias, da FAU-USP:
A ideia de utilizar formas que lembram mãos não é ruim, mas as formas estão terrivelmente mal resolvidas, e isso faz com que a figura, como um todo, pareça fraca, transmitindo a sensação de um desenho improvisado e pouco profissional, um tanto infantil e ingênuo, ao mesmo tempo sem a graça de um desenho de criança, ou a espontaneidade de algo genuinamente naif. Link
Foi usado uma versão com um “sombreado branco” + outline no 2014. Mas com certeza tal aplicação foi prevista no Manual de Marca… certo? Aliás, alguém ouviu falar em manual? Quem precisa disso!
E antes que digam que pode existir limitação na reprodução em latinhas, pergunto: não é tarefa do designer (gente, DESIGNER!) levantar essas informações e projetar um logotipo que funcione em tais meios ou mesmo aplicações dignas?
E não só isso. Cores, proporções, aqueles ® e ©…
Mas o que mais se perde é a tipografia. Com certeza o que tem de mais problemático nesse logo. Não existe, a meu ver, qualquer tratamento tipográfico no BrASil e muito menos no 2014. Vou arriscar dizer que não houve a menor preocupação com a tipografia, pois um typedesigner ou mesmo designer que preze por seu trabalho jamais usaria uma mistura de caixa-alta com caixa-baixa no nome do país com um L(éle) que não se sabe se é maiúsculo ou minúsculo, sem qualquer critério aparente.
Claro, hoje tudo é possível e todas as possibilidades são válidas, mas num evento desse porte, dessa importância, num job que, talvez, só se tem a oportunidade de fazer uma vez na vida, ter um (não menos que) excelente projeto tipográfico exclusivo é quase um dever. Qual o problema de se procurar a comunidade brasileira de typedesigners para tocar essa parte tão importante do projeto? Como sempre digo, temos tanta gente boa por aqui que fazer isso sozinho não se justifica. E esse talento e domínio brasileiro da técnica tipográfica é de tão alto nível que já é reconhecida internacionalmente. Só um exemplo: o tipo atualmente usado na comunicação da Adidas, incluindo as camisas das seleções patrocinadas pela marca, foi feita por um brasileiro, o Yomar Augusto. Repito: não se justifica, com o tamanho do projeto e da verba. Como Wollner comenta na entrevista, “o designer deve coordenar esses tipos de projetos”. Ele, mais que ninguém, saberá da importancia de se ter uma equipe especializada, com pessoas experts a frente de pontos diversos do projeto, buscando a maior qualidade possível. Esse é o papel de uma agência: agenciar.
Outro problema são os espaços em branco, mal trabalhados. Bons projetos levam isso em consideração, como no caso do TCC da Karina Campana, que vamos ver mais abaixo.
É um trabalho para entrar para história, para virar case dissecado por estudantes, para o designer e todos os participantes mostrarem para os netos e os netos mostrarem para seus netos com orgulho. É uma oportunidade imensurávelmente incrível para o designer e toda equipe, para a agência, para a história do Design nacional. Infelizmente tenho que responder ao Prof. João de Souza Leite (em seu artigo sobre o projeto em nome da ADG): visto desse prisma, sim, foi uma oportunidade desperdiçada.
E como se não bastasse, o Rodrigo do DesignFlakes encontrou essa imagem no ShutterStock que é, no mínimo, intrigante.
“Daniel, vamos fazer um protesto, site-blog-tumblr-concurso, abaixo assinado, vaquinha, fogueira, motim, rebelião…”
Candidaturas para Copas de 2018 e 2002
Algo que não posso negar é a vocação para “não aceitação popular” que projetos como esse tem. Aconteceu o mesmo com os designs para Alemanha 2006 e Africa do Sul 2010, para as Olimpíadas de Vancouver 2010, Londres 2012 e Socchi 2014. Além disso, temos os logotipos das candidaturas para sedes das Copas de 2018 e 2022. Acredite ou não, TODOS os projetos geraram protestos em seus países. Fiz questão de pesquisar e ler sobre um por um na web (um dos motivos para a demora pra esse artigo sair). Não vou me prolongar nos comentários sobre cada um deles, pois isso estará num próximo artigo do LOGOBR (tem muita coisa para comentarmos hein!). Vejam:
Antes que alguém diga, “mas aquele ali não é o design feito pra candidatura dos EUA, ta errado”. Não não, está certíssimo. Aquele ali é sim o logo (???) da candidatura dos americanos. O que você deve estar pensando é naquele projeto colorido, com letras grandes e fundo escuro. Então, esse foi o projeto de identidade visual feito pelo humilde estúdio Pentagram. Sensacional. Mesmo com um logo ruim, o Pentagram salvou o visual da candidatura dos EUA. Para quem não viu, delicie-se:
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